Quatro meses depois da inauguração, desandou a chover como nunca na nova capital. O aguaceiro chegou de repente, logo no início da manhã, antecipando o fim da estiagem de inverno. Pela cadência dos pingos que furavam a terra vermelha de pedrinhas duras e, mais ainda, pela aparência do céu carregado de nuvens pesadas e negras, aquela chuva não tinha hora para terminar. A paisagem era desoladora, uma cortina cinzenta descia do alto misturando-se ao chão sem deixar quase nada visível diante dos olhos. Praticamente todas as casas do vilarejo já haviam sido tomadas pelas águas do Paranoá. Apenas dois quarteirões com cerca de duzentos moradores resistiam ao alagamento. Eram como corpos à deriva afundando lentamente sobre a correnteza de um rio, mantendo-se vivos apenas com as cabeças para o lado de fora, agarrando-se a cada tufo de ar que ainda lhes restava. Eles testemunharam dezenove horas de chuva ininterrupta onde o céu parecia não querer dar trégua. Um autêntico dilúvio. Os ventos se tornavam mais intensos arrancando telhas e tábuas das últimas moradas, que se desmanchavam feito caixas de papelão.
Ficção inspirada em fatos reais e históricos da época da construção de Brasília.